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Mar 10

Olá :D

Hoje vamos publicar as respostas à entrevista que fizemos à psicóloga Vânia Guiomar, as quais foram por nós um pouco alteradas para se tornarem de mais fácil compreensão.

  

Vânia Guiomar licenciou-se em psicologia na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais do Algarve, tendo feito um trabalho de curso sobre a influência da televisão nos jovens, bastante completo e detalhado. Assim, eu e o meu grupo de trabalho decidimos contactá-la via e-mail, colocando-lhe algumas questões sobre o nosso tema que foram prontamente respondidas. Temos, então, de lhe agradecer imenso a ajuda preciosa que nos deu. MUITO OBRIGADA!

  

Aqui vai a entrevista:

 

Grupo: Concorda que a televisão constitui uma verdadeira influência para os jovens de hoje?

Vânia Vidigueira: Sim, concordo que a televisão continua a exercer uma grande influência sobre os jovens. Contudo, creio que actualmente assistimos a uma ligeira diminuição dessa influência, dado que existem outros meios de informação e comunicação com maior peso, tal como a Internet.

 

Grupo: A que nível acha que essa influência se manifesta? (Vestir, agir, ficar muito tempo em frente à televisão, …)

Vânia Vidigueira: Essa influência manifesta-se sobretudo no modo de estar, de agir (comportamentos e atitudes), assim como no modo de vestir, no tipo de linguagem utilizada, etc.

 

Grupo: Na sua opinião, nos jovens, a influência da televisão é mais notória em que idades? (12-14 ou 16-18 anos)

Vânia Vidigueira: Penso que a influência é visível em ambas as divisões (12/14 anos e 16/18 anos), embora apresentando manifestações diferentes. Nas idades mais precoces, esta influência parece manifestar-se sobretudo no modo de falar e de agir. Nas idades mais tardias, penso que é mais visível ao nível dos comportamentos e atitudes e modos de vestir. Contudo, não podemos dizer que existe tal divisão, pois tudo depende do ritmo de desenvolvimento de cada indivíduo. Existem crianças que desenvolvem mais precocemente a capacidade de reflexão sobre questões morais, emocionais e cognitivas, enquanto outras têm um ritmo mais lento. Neste sentido, as diversas influências que as crianças ou jovens revelam estão directamente relacionadas também com as suas trajectórias de desenvolvimento.

 

Grupo: Que tipo de programas acha que conseguem exercer uma maior influência sobre os jovens? (Séries? Telenovelas? … )

Vânia Vidigueira: Todos os tipos de programas, desde os telejornais às séries e telenovelas, podem influenciar os jovens. Contudo, é inegável o efeito exercido por géneros tais como séries e telenovelas, principalmente quando existe toda uma linguagem verbal e não verbal destinada maioritariamente aos jovens. Outro tipo de programação que parece influenciar de modo muito particular os jovens é os anúncios publicitários.

 

Grupo: Pode dar algum exemplo específico? (Exemplo: “Morangos com Açúcar” -  influenciam os jovens ao ponto destes começarem a falar e a vestir-se como os seus actores preferidos)

Vânia Vidigueira: Sim, os “Morangos com Açúcar” vêm exercendo uma profunda influência nos jovens já há algum tempo, principalmente desde 2004. Esta influência é visível no modo de falar, de vestir e de interagir com os pares e adultos. Outro dos programas que também teve esse efeito foi “Floribella”, principalmente para os jovens de idades mais precoces. Neste momento, pela minha experiência em contexto escolar, parece-me que programas tais como “Lua Vermelha” estão a ter um grande impacto nos jovens, na medida em que assisto frequentemente a brincadeiras inspiradas em tal programa.

 

 

 

Fig 1 - A série "Morangos com Açúcar" tem vindo a influenciar os jovens portugueses desde que surgiu na TVI, principalmente desde 2004.

 

Grupo: A seu ver, quanto tempo por dia considera normal ver-se televisão? A partir de quantas horas acha que existem já indícios de dependência?

Vânia Vidigueira: O padrão de normalidade é muito relativo. O que seria aceitável, em termos de desenvolvimento, seria uma hora ou hora e meia por dia, sendo que aos fins-de-semana este consumo tende a aumentar provavelmente para o dobro. Não podemos apontar para um número exacto de horas como indício de dependência (denominado antes de consumo exagerado). O que é importante reflectir é o número de horas que a criança ou jovem poderia passar a fazer outras tarefas ou brincadeiras mais ricas do ponto de vista relacional e de desenvolvimento. Assim, não é nada benéfico para uma criança ou jovem deixar de estar com os amigos, deixar de passear, deixar de ler, deixar de andar de bicicleta, entre outros, para estar diante da televisão.

 

Grupo: Acha que os pais deveriam exercer algum tipo de controlo sobre o género de programas vistos pelos filhos e/ou o tempo que devem passar à frente da televisão?

Vânia Vidigueira: Tenho a certeza que se os pais exercessem essa tarefa (controlo parental) teríamos, com certeza, jovens mais conscientes e críticos face aos conteúdos a que assistem. Os pais, como primeiros e principais educadores, deviam ter em consideração que a televisão exerce muitos papéis na vida dos jovens, desde meio de informação, a entretenimento ou simples companhia. Se por um lado, podemos efectuar aprendizagens positivas com a televisão, existem outras bem menos positivas. Contudo, também a escola deveria ter uma postura mais activa na educação dos jovens relativamente aos media.

 

 

Grupo: Acha que a localização da televisão pode contribuir, de alguma forma, para uma maior influência sobre os jovens? (Televisão no quarto pode ser uma verdadeira distracção para muitos.)

Vânia Vidigueira: A localização da televisão pode estar directamente relacionada com o número de horas de exposição televisiva. Quanto à relação localização do aparelho – influência, considero que não podemos estabelecer uma relação causal, a não ser pela associação com o número de horas, isto porque, se um jovem tem televisão no quarto passa a ter um consumo individual e personalizado controlado por ele mesmo.

 

 

Grupo: Considera que certos programas podem tornar os jovens mais violentos ou, por exemplo, introduzir-lhes ideias erradas acerca da sexualidade? (“Wrestling”, desenhos animados, telenovelas, …)

Vânia Vidigueira: Considero que sim. O caso do “Wrestling” é um caso flagrante, pois observo diariamente crianças e jovens a agredirem-se no recreio, num tom de brincadeira assustador. É do conhecimento geral, sendo também evidenciado em inúmeras investigações, que a exposição do indivíduo à violência televisiva cria um sentimento de apatia e dessensibilização perante tais situações, o que se reflecte posteriormente no nosso dia-a-dia, particularmente no modo como lidamos com determinados problemas. Quanto à questão da sexualidade, tal como em muitos outros aspectos, muitas vezes a informação transmitida não é a mais correcta e os jovens assimilam ideias pouco adequadas e nada construtivas.

 

 

 

 

Fig.2 - O "Wrestling" é dos programas que mais influenciam os jovens, sendo muitos aqueles que imitam as técnicas e posições nele apresentadas.

 

 

Grupo: E quanto à publicidade? Acha que a forma como ela nos chega contribui para uma certa manipulação das nossas atitudes? (Publicidade surge nos intervalos entre os programas que os jovens vêem e, mesmo que eles não a queiram ver, acabam sempre por ter acesso a ela.)

Vânia Vidigueira: Claramente que sim, a publicidade é um meio de propaganda e de persuasão. O objectivo é despertar a nossa atenção e a nossa curiosidade para determinados produtos ou serviços e levar-nos a procurá-los ou consumi-los.

 

Grupo: Como sabe, hoje em dia, surgem anúncios publicitários em filmes, séries, videoclipes, utilizando-se entidades famosas para publicitar certos produtos, acabando o telespectador por ser influenciado sem saber. O que pensa acerca do assunto?

Vânia Vidigueira: Penso que todos nós deveríamos ser bem mais críticos em relação ao que assistimos nos meios de informação e comunicação. Os actores estão a ser pagos para desempenhar aquele papel, para vender um determinado produto, apenas dão a cara… Cabe-nos a nós o papel de espectadores menos passivos, mais atentos e reflexivos.

 

Grupo: Considera que existe uma grande discrepância entre o que nos é apresentado na televisão e o que acontece na realidade? Porquê? (Por exemplo, séries como “CSI” podem levar as pessoas a pensar que a investigação criminal é feita exactamente daquela forma, o que acaba por iludir certos jovens que chegam mesmo por optar seguir carreiras do género, acabando depois por sofrer verdadeiras desilusões ao descobrir que o trabalho que possuem não é exactamente aquilo que esperavam.)

Vânia Vidigueira: Claro que existe uma total discrepância, na medida em que a televisão é constituída, na sua maioria e entre outras coisas, por ficção. Assim, devemos sempre questionar a veracidade das informações que nos chegam por qualquer meio de informação e comunicação. Uma educação para a utilização correcta dos media deveria passar por ensinar as crianças e jovens a ter uma atitude de reflexão crítica sobre os conteúdos que lhes chegam. Esse é um dos papéis de todos os educadores (pais e escola).

 

Espero que tenham ficado esclarecidos, alguma dúvida é só colocar :D

Rosa Pinho

publicado por ficcaovsrealidade às 17:43

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